Ficha de Leitura nº4
Unidade: Património genético
Assunto: Estamos a acelerar?
Desde que o Homo sapiens surgiu, há cerca de 50 mil anos, “a seleção natural tornou-se quase irrelevante”, escreveu, há alguns anos, o célebre paleontólogo Stephen Jay Gould (1941–2002). E acrescentava: “Não houve alterações biológicas. Construímos tudo aquilo a que chamamos cultura e civilização com o mesmo corpo e o mesmo cérebro.” Nas páginas do Centro de Psicologia Evolucionista da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, os seus diretores, Leda Cosmides e John Tooby, vão mais longe e, na introdução a este novo ramo da ciência, afirmam: “Os nossos crânios modernos alojam uma mente da Idade da Pedra.”
Ambas as afirmações constituem exemplos de uma noção que tem permeado o campo da antropologia há várias décadas: deixámos de evoluir e continuamos amarrados, tanto biológica como mentalmente, à época em que éramos caçadores-recoletores.
Todavia, diversos cientistas andam empenhados, há pouco mais de cinco anos, em desmontar esta ideia. O seu trabalho não só contesta que tenhamos ficado “ancorados” como declara que mudámos, nos últimos dez mil anos, centenas de vezes mais depressa do que em qualquer período anterior da história da nossa espécie. Há 2000 novas adaptações genéticas que não se restringem às habituais diferenças físicas entre grupos étnicos, como a cor da pele ou dos olhos. As mutações a que se referem estão relacionadas com o cérebro, o sistema digestivo, a esperança de vida, a imunidade a agentes patogénicos, a produção de esperma…
Um desses investigadores é o antropólogo Henry Harpending, da Universidade do Utah, o qual considera que as populações humanas estão a distanciar-se biologicamente. “É como se estivessem a evoluir separadamente umas das outras”, indica. Juntamente com Gregory Cochran, físico e professor do Departamento de Antropologia da mesma universidade, publicou o controverso livro The 10.000 Year Explosion, no qual defende que há provas da ação de forças evolutivas no ser humano mesmo em tempos tão recentes como a Idade Média.
Parte de um aspeto um tanto misterioso relativo aos judeus ashkenazis, descendentes dos que se estabeleceram na Europa Central e Oriental no início do século X. Aparentemente, possuem um quociente intelectual superior ao de qualquer outra etnia; situa-se geralmente entre os 112 e os 115 pontos (a média é de 100). Embora os ashkenazis representem apenas três por cento da população norte-americana, conquistaram 27% dos prémios Nobel e 25% dos prémios Turing (o equivalente ao Nobel para as ciências da computação) nacionais, e também constituem metade dos grandes mestres de xadrez. Em 2005, Harpending, Cochran e Jason Hardy publicaram na revista Journal of Biosocial Science uma explicação bastante polémica, segundo a qual essa superioridade no quociente intelectual pode ser explicada, simplesmente, pela seleção natural.
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